O IPCA-15, prévia da inflação oficial, subiu 0,70% em setembro, depois de registrar deflação de 0,40% em agosto. O resultado ficou acima da expectativa de 0,53% apurada pela Reuters. Em 12 meses, o índice passou de 4,24% para 4,47%, aproximando-se do teto de 4,5% da meta de inflação.
O número, isoladamente, não significa que o processo de desiflação tenha sido interrompido. Mas ele chega em um momento particularmente delicado: o Banco Central acaba de reduzir a Selic para 13,75% ao ano e o mercado vinha projetando novas reduções até o fim de 2026.
A questão que se coloca agora é quanto espaço ainda existe para novos cortes sem que a inflação volte a ganhar força.
O que aconteceu com a inflação
A aceleração do IPCA-15 era parcialmente esperada. Em agosto, a inflação havia sido beneficiada por um desconto temporário na conta de energia elétrica decorrente do bônus de Itaipu. Em setembro, com o fim desse efeito, a energia elétrica residencial subiu 7,42% e foi responsável por 0,29 ponto percentual do índice. O grupo Habitação avançou 2,07%.
Mas o resultado não se limitou à energia. Todos os nove grupos pesquisados pelo IBGE registraram alta. Alimentação e bebidas subiram 0,40%, com aumentos importantes de produtos como tomate, arroz e carnes. Transportes avançaram 0,60%, enquanto despesas pessoais tiveram alta de 0,96%.
Isso exige uma leitura cuidadosa. A inflação de setembro não deve ser interpretada simplesmente como uma reversão estrutural do processo de desinflação, porque parte relevante da alta está relacionada a efeitos conhecidos e temporários. Por outro lado, a composição mais disseminada do índice mostra que o problema não se resume à energia.
O Banco Central já havia alertado
O Relatório de Política Monetária divulgado pelo Banco Central na quinta-feira reforçou essa preocupação. O documento reconhece que a inflação acumulada em 12 meses caiu de 4,7% em maio para 4,2% em agosto, mas ressalta que parte dessa redução veio justamente do desconto temporário da energia elétrica.
O Banco Central também projeta que a inflação volte a subir nos próximos meses, especialmente devido ao comportamento dos alimentos. Para 2026, as expectativas de mercado estavam em 4,9%, enquanto as projeções para 2027 e 2028 eram de 4,3% e 3,8%.
O cenário de atividade também mudou. O PIB brasileiro cresceu apenas 0,5% no segundo trimestre, contra 1,1% no primeiro. O Banco Central avalia que a desaceleração deve continuar e projeta crescimento de 1,8% em 2026 e 1,4% em 2027. Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho continua forte.
É justamente essa combinação que torna a decisão sobre os juros mais complexa. A economia está desacelerando, o que favorece cortes. Mas a inflação e as expectativas permanecem acima da meta, o que recomenda cautela.
O mercado ainda espera juros menores
Apesar da surpresa do IPCA-15, o Boletim Focus divulgado na segunda-feira apontava para uma Selic de 13,50% no final de 2026, contra 13,75% anteriormente. A mesma pesquisa elevou a projeção de inflação para 4,92% e reduziu a expectativa de crescimento do PIB para 1,88%.
Isso revela uma aparente contradição: o mercado espera juros menores mesmo com inflação mais alta. A explicação está na atividade econômica. Uma economia crescendo menos pode reduzir pressões sobre preços e permitir algum grau de flexibilização monetária. O problema é que o espaço para esse movimento fica menor quando as expectativas de inflação permanecem acima da meta.
Por isso, a questão mais importante para os próximos meses não é se a Selic vai cair?**, mas qual será a velocidade da queda?
E o cenário internacional?
O ambiente externo tornou a situação ainda mais complexa. O Federal Reserve elevou os juros americanos para a faixa entre 3,75% e 4% na semana passada, na primeira alta desde julho de 2023. A decisão refletiu a preocupação com a inflação americana, que permanece elevada.
Nesta semana, os rendimentos dos títulos americanos voltaram a subir. O Treasury de dez anos chegou a superar 5,1%, enquanto o petróleo permaneceu acima de US$ 100 por barril em boa parte da semana, diante das tensões no Oriente Médio.
Para o Brasil, essa combinação importa. Juros americanos elevados tendem a aumentar a remuneração disponível em ativos considerados mais seguros globalmente. Petróleo caro, por sua vez, pode pressionar a inflação brasileira e dificultar a tarefa do Banco Central.
O cenário externo, portanto, pode limitar a velocidade com que a Selic brasileira consegue cair.
O que isso significa para a renda fixa?
A primeira consequência é que a queda da Selic não implica necessariamente queda equivalente em todas as taxas de juros do mercado.
Os títulos prefixados e os títulos indexados à inflação são precificados de acordo com as expectativas para os juros futuros. Se o mercado acreditar que a inflação continuará controlada e que o Copom poderá reduzir a Selic de forma consistente, as taxas longas podem cair.
Mas se houver deterioração das expectativas de inflação, pressão fiscal, aumento do dólar ou juros internacionais mais elevados, a curva pode permanecer pressionada.
Para o investidor que carrega um título até o vencimento, a oscilação diária do preço tem importância diferente daquela enfrentada por quem pretende vender antecipadamente. Essa é uma das razões pelas quais marcação a mercado e prazo de investimento precisam ser analisados conjuntamente.
E os FIIs?
O mesmo raciocínio vale para os fundos imobiliários. A perspectiva de juros menores pode aumentar a atratividade relativa dos FIIs em relação à renda fixa e favorecer, em determinadas circunstâncias, a valorização das cotas. Mas a variável decisiva não é só a Selic.
Os FIIs respondem principalmente às condições de financiamento, às taxas de juros de mercado e às perspectivas para a economia. Nos fundos de tijolo, entram ainda fatores como aluguel, vacância, reajustes e valor dos imóveis. Nos fundos de papel, inflação, crédito e juros têm peso maior.
Assim, uma eventual desaceleração da queda dos juros pode afetar segmentos diferentes de maneiras diferentes.
E as ações?
Para a Bolsa, a inflação mais resistente pode ter efeitos contraditórios. Empresas de setores mais defensivos ou com capacidade de repassar custos podem apresentar comportamento diferente de companhias mais dependentes de crédito e crescimento econômico.
Juros elevados também aumentam a taxa utilizada pelo mercado para avaliar fluxos de caixa futuros, o que tende a afetar especialmente empresas cujo valor depende de resultados esperados para períodos mais distantes.
Ao mesmo tempo, algumas empresas podem se beneficiar de um cenário de dólar mais elevado ou petróleo mais caro. É o caso das exportadoras e de companhias ligadas a commodities, embora cada empresa possua sua própria estrutura de custos e receitas.
Por isso, não existe uma relação simples entre inflação e Bolsa.
Há ainda a variável fiscal
O cenário fiscal continua sendo uma peça importante. O Prisma Fiscal divulgado pelo Ministério da Fazenda mostrou que o mercado projeta déficit primário de R$ 52,3 bilhões para o Governo Central em 2026, enquanto a projeção para a dívida bruta subiu de 83% para 83,2% do PIB.
Na mesma semana, o governo reduziu sua projeção de crescimento econômico para 2% em 2026 e 2,3% em 2027. Com a aproximação das eleições, as expectativas sobre política fiscal tendem a ganhar ainda mais importância para o mercado. Isso pode afetar principalmente a curva de juros e o câmbio, que por sua vez influenciam praticamente todas as classes de ativos brasileiros.
O que observar nas próximas semanas
Quatro indicadores merecem atenção especial.
1. Inflação corrente
Os próximos dados mostrarão se a alta do IPCA-15 foi predominantemente temporária ou se existe uma pressão mais disseminada.
2. Expectativas de inflação
Mais importante que uma leitura isolada é observar se as projeções para 2026 e 2027 continuam se afastando da meta.
3. Curva de juros
A diferença entre a Selic atual e as taxas negociadas para os próximos anos ajudará a revelar quanto espaço o mercado ainda vê para cortes.
4. Cenário externo
Juros americanos, petróleo e dólar podem alterar rapidamente as condições financeiras brasileiras.
Para o investidor
O acontecimento mais importante da semana não foi necessariamente a alta de 0,70% do IPCA-15. O que importa é o que o número muda nas expectativas.
O Brasil entrou em um ciclo de redução da Selic, mas a inflação ainda não está definitivamente sob controle. O Banco Central reconhece que as expectativas permanecem acima da meta e que os riscos inflacionários exigem cautela. Ao mesmo tempo, a economia está desacelerando e o mercado continua projetando juros menores.
É desse conflito que deverá surgir a trajetória da política monetária nos próximos meses.
Para o investidor de longo prazo, a lição é relevante: não basta acompanhar a Selic anunciada pelo Banco Central. É necessário observar inflação, expectativas, juros futuros, câmbio, atividade econômica e condições internacionais.
Para FIIs, renda fixa e ações, o que determina o comportamento dos preços não é apenas o nível atual dos juros, mas principalmente a percepção do mercado sobre onde esses juros estarão no futuro.
A semana terminou justamente com essa percepção um pouco mais incerta.
Fontes:
[1]: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2026/09/25/ipca-15-sobe-070-em-setembro-diz-ibge.htm?utm_source=chatgpt.com "IPCA-15 sobe 0,70% em setembro, diz IBGE"
[2]: https://portaldeprefeitura.com.br/brasil/inflacao-registra-alta-de-070-em-setembro-aponta-previa-do-ibge/632871/?utm_source=chatgpt.com "Inflação registra alta de 0,70% em setembro, aponta prévia do IBGE - Portal de Prefeitura"
[3]: https://www.bcb.gov.br/publicacoes/rpm/202609?utm_source=chatgpt.com "Relatório de Política Monetária"
[4]: https://timesbrasil.com.br/brasil/economia-brasileira/selic-13-50-boletim-focus-2026/?utm_source=chatgpt.com "Mercado passa a prever Selic de 13,50% no fim de 2026 e vê inflação de 4,92%, acima do teto da meta, diz Boletim Focus - Times Brasil | CNBC"
[5]: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/09/fed-aumenta-taxa-de-juros-nos-eua-pela-primeira-vez-desde-julho-de-2023.shtml?utm_source=chatgpt.com "Inflação: Fed aumenta taxa de juros nos EUA - 16/09/2026 - Economia - Folha"
[6]: https://www.bol.uol.com.br/economia/2026/09/25/dolar-bolsa-abre-hoje-25-de-setembro-de-2026.ghtm?utm_source=chatgpt.com "Dólar abre em baixa, a R$ 5,18, com IPCA-15 e petróleo no radar"
[7]: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2026/setembro/mercado-projeta-deficit-primario-de-r-52-271-bilhoes-para-o-governo-central-em-2026-mostra-prisma-fiscal?utm_source=chatgpt.com "Mercado projeta déficit primário de R$ 52,271 bilhões para o Governo Central em 2026, mostra Prisma Fiscal — Ministério da Fazenda"
[8]: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2026/setembro/secretaria-de-politica-economica-projeta-crescimento-de-2-para-o-pib-em-2026-e-2-3-em-2027?utm_source=chatgpt.com "Secretaria de Política Econômica projeta crescimento de 2% para o PIB em 2026 e 2,3% em 2027 — Ministério da Fazenda"