O pleito ocorre em um momento particularmente sensível para a economia. O Banco Central iniciou um ciclo de redução da Selic, mas as expectativas de inflação continuam acima da meta; a atividade econômica mostra sinais de desaceleração; a dívida pública permanece elevada; e o cenário internacional continua marcado por juros altos, petróleo caro e incertezas geopolíticas.
Nesse ambiente, a eleição não deve ser observada pelo investidor apenas como um evento político. Ela representa uma mudança potencial na condução da política fiscal, econômica e regulatória do país, com consequências sobre juros, câmbio, Bolsa e, indiretamente, sobre os fundos imobiliários.
Uma eleição ainda sem resultado definido
O primeiro turno será realizado em 4 de outubro. Caso nenhum candidato obtenha mais de 50% dos votos válidos, o segundo turno ocorrerá em 25 de outubro. O TSE informa que 158,8 milhões de eleitores estão aptos a votar.
A última pesquisa Datafolha, realizada entre 29 de setembro e 1º de outubro, mostra Luiz Inácio Lula da Silva com 45% dos votos válidos, contra 40% de Flávio Bolsonaro. Augusto Cury aparece com 4%, enquanto Ronaldo Caiado e Renan Santos têm 3% cada.
A vantagem de Lula no primeiro turno, entretanto, não significa necessariamente vitória na eleição. Na simulação de segundo turno, o Datafolha encontrou 48% para Lula e 45% para Flávio Bolsonaro, dentro de um cenário ainda sujeito à margem de erro. A pesquisa ouviu 2.506 eleitores em 152 municípios e possui margem de erro de dois pontos percentuais.
É importante separar fato de interpretação: pesquisas eleitorais não são previsões de resultado. O próprio levantamento mostra que 17% dos eleitores que já declararam uma opção ainda admitem mudar o voto. Portanto, o mercado entra no fim de semana diante de uma eleição ainda aberta.
Por que a eleição importa tanto para os investimentos?
A principal variável econômica envolvida no processo eleitoral é a política fiscal.
O governo que assumir em 2027 terá de lidar com uma estrutura de despesas bastante rígida, necessidade de financiamento e uma dívida pública elevada.
O Prisma Fiscal de setembro mostrou que o mercado projeta déficit primário de R$ 52,3 bilhões para o Governo Central em 2026. Para 2027, a projeção é de R$ 45,35 bilhões. A estimativa de dívida bruta subiu de 83% para 83,2% do PIB em 2026 e de 86,77% para 87% em 2027.
Ao mesmo tempo, o resultado efetivamente observado também merece atenção. O Governo Central registrou déficit primário de R$ 13,6 bilhões em agosto, levando o acumulado de janeiro a agosto para R$ 94,9 bilhões.
Isso não significa que a situação fiscal esteja necessariamente fora de controle. Há diferença entre déficit primário, resultado nominal e trajetória da dívida, e a avaliação depende também do crescimento econômico e do custo médio da dívida. O problema para o mercado é outro: qual será a trajetória futura dessas variáveis? É essa expectativa que influencia os juros de longo prazo.
O mercado não olha apenas para a Selic
O Banco Central reduziu a Selic para 13,75% em setembro e reconheceu que a atividade econômica está desacelerando. No segundo trimestre, o PIB cresceu 0,5%, abaixo dos 1,1% registrados no primeiro trimestre. O Banco Central projeta crescimento de 1,8% em 2026 e 1,4% em 2027.
Mas a inflação ainda está acima da meta. As expectativas de mercado para o IPCA são de 4,9% em 2026 e 4,3% em 2027, segundo os dados utilizados pelo próprio Banco Central.
Isso cria uma situação delicada. Se o próximo governo conseguir transmitir uma percepção de maior disciplina fiscal, pode haver espaço para redução dos prêmios de risco e das taxas de juros de longo prazo.
Se, ao contrário, as políticas econômicas forem percebidas como expansionistas ou pouco sustentáveis, o mercado pode exigir juros maiores para financiar o Estado.
Essa é uma das principais razões pelas quais eleições podem provocar movimentos fortes nos preços dos ativos.
A semana mostrou como o mercado está sensível
O comportamento da Bolsa na sexta-feira é um exemplo. O Ibovespa subiu 2,62%, para 192.114 pontos, enquanto o dólar recuou 0,13%, para R$ 5,216. A alta ocorreu justamente na véspera do primeiro turno, em um ambiente influenciado pelas pesquisas eleitorais e pelo enfraquecimento do mercado de trabalho americano.
É preciso, entretanto, evitar uma interpretação simplista. A alta da Bolsa não pode ser atribuída exclusivamente à eleição. O Payroll americano divulgado na sexta-feira mostrou a criação de apenas 29 mil empregos em setembro, muito abaixo das expectativas de aproximadamente 90 mil. A taxa de desemprego subiu para 4,2%.
O dado reduziu a pressão por novas altas de juros nos Estados Unidos e contribuiu para melhorar o ambiente internacional de risco. Portanto, a alta do Ibovespa resultou da combinação de fatores domésticos e externos.
O cenário internacional continua importante
Enquanto o Brasil se prepara para votar, o ambiente externo permanece complexo.
O Federal Reserve elevou recentemente os juros americanos pela primeira vez desde 2023, mas dados mais recentes, especialmente o mercado de trabalho, diminuíram a pressão por uma nova alta imediata. Reuters informou nesta sexta-feira que dirigentes do Fed passaram a defender mais tempo para avaliar os dados antes de uma nova decisão.
Ao mesmo tempo, o petróleo continua elevado. O Brent fechou a sexta-feira próximo de US$ 102 por barril, mesmo depois da decisão do G7 de liberar estoques estratégicos para tentar aliviar a pressão sobre os preços dos combustíveis.
O problema é particularmente relevante para o Brasil porque petróleo caro pode pressionar a inflação, o câmbio e as expectativas de juros. O Banco Central classificou a escalada do conflito no Oriente Médio como uma das principais fontes de risco para o cenário global.
Assim, o próximo governo brasileiro não começará sua gestão em um ambiente internacional neutro.
O que isso significa para a renda fixa?
A eleição pode afetar a renda fixa principalmente através da curva de juros.
Se o mercado interpretar as primeiras sinalizações do próximo governo como favoráveis à sustentabilidade das contas públicas, as taxas futuras podem cair.
Isso tende a beneficiar títulos prefixados e títulos indexados à inflação que tenham sido adquiridos anteriormente a taxas mais elevadas, especialmente para quem eventualmente negocia esses papéis antes do vencimento.
O movimento contrário também é possível.
Uma deterioração das expectativas fiscais pode elevar as taxas futuras. Nesse caso, títulos prefixados e IPCA+ podem sofrer desvalorização no mercado secundário, ainda que continuem pagando as condições contratadas para quem os mantiver até o vencimento.
Essa diferença entre preço de mercado e rentabilidade contratada é fundamental para entender o comportamento da renda fixa em períodos eleitorais.
E os FIIs?
Os fundos imobiliários também podem ser afetados, mas de maneira indireta.
O principal canal é a taxa de juros. Um cenário de queda consistente dos juros futuros tende a melhorar a atratividade relativa dos FIIs, especialmente porque reduz o retorno oferecido por alternativas de renda fixa e pode diminuir a taxa utilizada pelos investidores para avaliar ativos imobiliários.
Mas uma eleição não altera automaticamente os fundamentos dos fundos.
Nos FIIs de tijolo, continuam sendo determinantes fatores como:
- qualidade dos imóveis;
- localização;
- vacância;
- capacidade de reajuste dos aluguéis;
- contratos;
- crescimento dos resultados.
Nos FIIs de papel, ganham importância:
- inflação;
- juros;
- qualidade do crédito;
- spreads;
- indexadores dos recebíveis.
Por isso, mesmo que o mercado imobiliário seja favorecido por uma eventual queda dos juros, o desempenho de cada fundo dependerá de seus próprios fundamentos.
E as ações?
A Bolsa provavelmente será o mercado mais sensível às expectativas eleitorais. Isso ocorre porque as ações incorporam expectativas de crescimento, juros, câmbio, tributação, regulação e política econômica. Setores também podem reagir de maneiras diferentes.
Empresas mais dependentes do mercado doméstico e do crédito podem ser especialmente sensíveis à trajetória dos juros. Exportadoras podem responder de maneira diferente a movimentos do dólar. Empresas ligadas a commodities podem sofrer influência adicional do petróleo, minério de ferro e demais preços internacionais.
Bancos, por sua vez, são influenciados simultaneamente por crédito, inadimplência, atividade econômica, juros e regulação.
O que observar depois do primeiro turno
O resultado das urnas será apenas o primeiro elemento. Para o mercado financeiro, talvez sejam ainda mais importantes os sinais que surgirão nos dias seguintes.
1. Haverá segundo turno?
O resultado do primeiro turno determinará se a disputa presidencial será encerrada ou se continuará até 25 de outubro.
2. Qual será a composição do Congresso?
Presidente não governa sozinho. A composição da Câmara e do Senado será fundamental para determinar a possibilidade de aprovação de reformas, mudanças tributárias, regras fiscais e outras medidas econômicas.
3. Quem comandará a política econômica?
A escolha da equipe econômica poderá ser interpretada pelo mercado como um sinal importante sobre a orientação do futuro governo.
4. Qual será a política fiscal?
Esse provavelmente será o ponto mais importante. Mais do que promessas de campanha, o mercado precisará avaliar como o próximo governo pretende lidar com despesas obrigatórias, resultado primário e dívida pública.
5. Como reagirão os juros futuros?
Esse será um dos indicadores mais importantes para acompanhar a reação dos mercados. Uma queda das taxas longas pode sinalizar melhora das expectativas. Uma alta pode indicar aumento do prêmio de risco.
6. O que acontecerá com o dólar?
O câmbio funcionará como outro termômetro das expectativas sobre o Brasil e também será influenciado pelo cenário internacional.
Para o investidor
O acontecimento mais importante da semana foi certamente a entrada definitiva das eleições na formação das expectativas dos mercados.
A partir de agora, a política econômica de 2027 passa a ser gradualmente incorporada aos preços dos ativos. Isso não significa que o resultado eleitoral determine o comportamento da Bolsa, dos FIIs ou da renda fixa. O mercado continuará reagindo a inflação, juros internacionais, petróleo, crescimento, resultados empresariais e acontecimentos geopolíticos.
Para o investidor de longo prazo, esse ponto é mais importante do que tentar antecipar a reação do mercado na segunda-feira. No caso dos FIIs, isso passa principalmente pelos juros e pelo custo de capital.
Na renda fixa, pela trajetória da curva de juros e da inflação. E nas ações, pelas expectativas de crescimento, juros, câmbio e resultados das empresas.
A eleição pode alterar essas variáveis, mas não substitui a análise dos fundamentos.
O resultado das urnas será conhecido neste domingo. A verdadeira questão para os investidores começará depois: qual política econômica será construída a partir dele — e como o mercado avaliará sua capacidade de produzir crescimento sem deteriorar a estabilidade fiscal e monetária.
Principais fontes
Reuters — cenário dos mercados e eleição brasileira