A semana (7 a 11 de setembro/2026) terminou com uma situação particularmente importante para os mercados brasileiros: Brasil e Estados Unidos estão caminhando em direções opostas na política monetária.

Na sexta-feira, o IBGE divulgou que o IPCA caiu 0,32% em agosto, levando a inflação acumulada em 12 meses para 4,22%. Foi a maior deflação para um mês de agosto desde 2022. O resultado foi fortemente influenciado pela redução de 7,63% na energia elétrica, associada ao bônus de Itaipu. (BOL)

Nos Estados Unidos, ocorreu o contrário. O CPI subiu 0,4% em agosto, acumulando alta de 3,4% em 12 meses. O núcleo, que exclui alimentos e energia, avançou 0,3% no mês e 2,4% em 12 meses. A gasolina subiu 3,9% e a energia acumulou alta de 16,3% em um ano. (Bureau of Labor Statistics)

A diferença é relevante porque os dois bancos centrais tomam decisões de juros justamente na próxima semana.

O Fed diante de uma inflação ainda resistente

Os números americanos aumentaram as apostas de que o Federal Reserve poderá elevar os juros em sua reunião de 15 e 16 de setembro.

Depois da divulgação do CPI, os contratos futuros chegaram a indicar probabilidade próxima de 90% de uma alta, segundo a Reuters. (Reuters)

Isso não significa que a decisão esteja definida. O Fed precisa avaliar também o mercado de trabalho, a atividade econômica e a natureza dos aumentos de preços.

Mas há um problema evidente: a inflação americana está em 3,4%, significativamente acima da meta de 2%.

Além disso, o aumento recente dos preços de energia cria um risco adicional. O petróleo chegou a superar US$ 100 por barril durante a semana em meio às tensões no Oriente Médio. Mesmo depois da queda desta sexta-feira, o Brent terminou a semana próximo de US$ 100 e acumulou forte valorização. (The Wall Street Journal)

Para o Fed, portanto, o cenário é desconfortável: inflação elevada, energia mais cara e uma economia que ainda não apresenta sinais de colapso.


Enquanto isso, o Brasil prepara mais um corte

A situação brasileira é diferente.

O IPCA de agosto veio abaixo das expectativas e levou a inflação para dentro do intervalo de tolerância da meta. O mercado passou a considerar ainda mais provável um corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Copom, marcada para 15 e 16 de setembro.

A Selic está atualmente em 14% ao ano. O problema é que a deflação de agosto não deve ser interpretada como uma mudança estrutural da inflação brasileira.

A energia elétrica respondeu por parcela relevante do resultado. Sem esse efeito, o comportamento do índice teria sido muito diferente. Além disso, medidas de inflação subjacente, especialmente alguns serviços, continuam mostrando pressão.

O próprio Banco Central vem destacando que os riscos inflacionários permanecem elevados, incluindo os efeitos de petróleo, câmbio e inflação de serviços. (Banco Central do Brasil)

Assim, o cenário mais provável continua sendo de flexibilização monetária gradual, e não de uma rápida redução dos juros.


Por que isso importa para os investimentos?

A divergência entre Fed e Copom pode produzir efeitos importantes sobre os ativos brasileiros.

Renda fixa

A Selic menor tende a reduzir a remuneração dos investimentos pós-fixados ao longo do tempo. Mas isso não significa que todos os títulos de renda fixa devam se valorizar. Se os juros americanos subirem ou permanecerem elevados, o dólar pode ganhar força e a curva brasileira de juros pode sofrer pressão, principalmente nos vencimentos mais longos.

É justamente nesse ponto que a marcação a mercado ganha importância. Um título prefixado comprado hoje pode sofrer valorização se as taxas futuras caírem, mas também pode perder valor temporariamente se as expectativas de juros subirem.

FIIs

Os fundos imobiliários também entram diretamente nessa equação. A queda da Selic, em princípio, melhora a atratividade relativa dos FIIs diante da renda fixa. Porém, se os juros longos brasileiros forem pressionados pelo ambiente internacional, a valorização das cotas pode ser limitada. Além disso, fundos de papel e fundos de tijolo possuem sensibilidades diferentes a juros, inflação, crédito e atividade econômica.

Portanto, “Selic caiu” não é uma explicação suficiente para entender o comportamento dos FIIs.

Ações

Na Bolsa, os efeitos são ainda mais heterogêneos. Empresas exportadoras podem se beneficiar de um dólar mais forte. Produtoras de petróleo podem se beneficiar de preços elevados da commodity.

Por outro lado, juros altos aumentam o custo de capital e tendem a pesar mais sobre empresas dependentes de financiamento e sobre companhias cujo valor depende de expectativas de crescimento futuro.

Na sexta-feira, o Ibovespa recuou 0,69%, para 186.967 pontos, enquanto o dólar subiu 0,43%, para R$ 5,125. Mesmo assim, a Bolsa acumulou forte valorização nas últimas semanas, impulsionada também pelo fluxo estrangeiro. (UOL Economia)


A próxima semana será decisiva

A chamada “superquarta” de setembro concentra dois eventos fundamentais. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve decide os juros nos dias 15 e 16 de setembro. No Brasil, o Copom também se reúne nos dias 15 e 16, conforme o calendário oficial do Banco Central. (Banco Central do Brasil)

O interessante é que os dois bancos centrais podem tomar decisões em sentidos diferentes. O Fed pode apertar a política monetária enquanto o Banco Central brasileiro reduz a Selic.

Essa divergência pode afetar:

  • dólar;

  • juros futuros;

  • títulos públicos;

  • FIIs;

  • ações;

  • fluxo de capital estrangeiro.


Para o investidor

A principal notícia da semana não foi simplesmente a deflação brasileira ou a inflação americana. Foi a divergência entre os dois cenários. No Brasil, a inflação corrente melhorou e a atividade econômica dá sinais de desaceleração, abrindo espaço para novos cortes da Selic. Nos Estados Unidos, a inflação continua distante da meta e os preços de energia adicionam uma nova fonte de pressão.

Isso cria um cenário em que os juros brasileiros podem cair enquanto os juros americanos sobem. Para quem investe, essa é uma situação que merece atenção porque modifica a relação entre juros domésticos, câmbio e fluxo internacional de capital.

A questão central para as próximas semanas será descobrir se a inflação americana representa apenas uma pressão temporária — ou o início de um período mais prolongado de juros elevados.

No Brasil, a pergunta é complementar: até onde o Banco Central poderá reduzir a Selic sem que o câmbio, a inflação e os juros internacionais voltem a limitar esse movimento?

É nesse cruzamento entre as duas políticas monetárias que estará boa parte do comportamento dos mercados nas próximas semanas.